A sintonia que conquistou Selma Boiron

Uma profissão por um mero acaso. Foi assim que o rádio surgiu, de repente, para Selma Boiron,52, e logo virou uma realidade. A moradora de Icaraí tinha a intenção de ser jornalista, cursava o segundo ano de Comunicação Social na Universidade Federal Fluminense (UFF). Hoje, Selma é a radialista que está no ar no fim das tardes, de segunda a sexta, com o programa “A Hora do Blush”, pela SulAmérica Paradiso (95,7 FM). “O papo costuma ser bem descontraído, porque o ouvinte já está cansado de ouvir notícia séria. Procuro ser mais informal e deixá-los mais relaxados”, explica.

Mas para chegar lá, a ela precisava trilhar alguns caminhos, quando viu em um anúncio de jornal a oportunidade de virar locutora. Ter o segundo grau completo, inglês fluente e boa voz eram essenciais para a vaga. Os pré requisitos ela tinha, o que custava tentar? Tentou e conseguiu, de duzentas mulheres, Selma foi uma das seis escolhidas para integrar o primeiro time feminino da Rádio Fluminense FM, 94.9 MHz. E lá se vão 33 anos de locução e muita história para contar.

No dia 1º de março de 1982, às 6 horas da manhã, aconteceu o primeiro contato de Selma Boiron com o microfone da Fluminense FM. A fase “Maldita”, conhecida como um período do início da rádio, estreou com um novo estilo e linguagem diferenciada, além de lançar muitas bandas de rock nacional, como Paralamas do Sucesso, Legião Urbana e Kid Abelha. A primeira rádio com a locução feminina era o diferencial. “No começo foi assim, voz tremula, fraquinha, mas com o tempo fui melhorando, ganhei mais segurança”, lembra.

A dificuldade em manter a graduação e a nova carreira de locutora obrigou Selma a fazer uma escolha. Na rádio ela aprendeu toda a prática e que os anos de faculdade poderiam não dar, mas a teoria ficou em falta. Ela se arrepende de não ter o diploma, mas não mudaria a escolha que fez para a vida. “Se eu tivesse tido uma formação acadêmica, teria facilitado bastante”.

Pioneira, Selma entende que o início da carreira serviu de incentivo para as mulheres nesse novo segmento da comunicação. “Até o início dos anos 80, o que havia de locução feminina no rádio era ‘voz de veludo’, nós entramos com uma pegada diferente, mais jovem. O jornalista e diretor da rádio, Luiz Antônio Mello, queria ‘marrentinhas’ no ar, mas sem falar muitas gírias. Na verdade ele queria mulheres mostrando o seu lado rock and roll”.

Ter sua voz como marca é fundamental para o locutor. Selma já foi do Sertanejo ao Rock, da Música Popular Brasileira ao Adulto Contemporâneo, o segredo é não ficar parado. Para ela, é só questão de adaptação. “O importante é você manter as suas características para ter uma assinatura no ar”, deixa a dica.

Após o sucesso da Maldita, a voz da locutora passou pela Rádio Rock, Oi FM, Jovem Pan, Transamérica, além da Rádio Cidade em Portugal. A experiência de trabalhar com o que gosta e conhecer a cultura de outro país a fez recusar uma proposta na televisão. Ela iria fazer parte da bancada de um telejornal na extinta TV Rio, mas preferiu ter só a voz como ferramenta de trabalho.

Discreta, vestindo um pretinho básico, Selma se distancia um pouco da locutora extrovertida e brincalhona da rádio. “No ar, dentro do estúdio, eu me solto mais. Sem dúvida nenhuma, a melhor Selma é a Selma entrevistando, eu adoro conversar. E ganhar para isso é o máximo”. Ela lembra que já teve fases de timidez e extroversão. Quando criança, adorava inventar histórias e não parava quieta, já na adolescência, até iniciar a carreira como locutora, ela já era mais reservada. Apesar disso, lembra que existe uma vantagem do rádio para os tímidos. “Você pode estar falando para um Maracanã de pessoas, mas você só está olhando para o microfone, ninguém está te vendo. Isso ajuda bastante”.

Ao longo dos mais de 30 anos de profissão já aconteceu de tudo no “ao vivo” de Selma, histórias que são contadas por ela com sorriso nos lábios. Não por serem engraçadas, mas um tanto inusitadas. “Estúdio de rádio é um celeiro de bizarrices”, diz. Momentos como apresentar o programa de pijama para não perder o horário de entrar no ar, experimentar biquíni no estúdio fechado durante o intervalo ou passar a abertura do programa com uma barata voadora andando na sua mão sem poder alterar o tom de voz são alguns dos exemplos.

Além das situações adversas, os prós e contras da carreira de radialista existem, como em qualquer outra profissão. No início, ficou anos sem tirar férias por trocar de emissora, e trabalhava em feriados importantes. Mas quando se gosta do que faz, o ônus fica menor que o bônus. O rádio proporcionou momentos inesquecíveis para Selma, como entrevistar recentemente, via telefone, o cantor britânico Paul McCartney e apresentar shows de cantores renomados no Brasil. “São coisas que se não fosse o rádio, jamais teriam acontecido”, completa.

Depois de marcar a carreira em diversas emissoras e estações, Selma afirma que já “trabalhou nas onze” dentro do rádio. De coordenação a programação. Mas declara um amor particular pela arte de falar e informar o ouvinte. Ela não esquece de enfatizar que é essencial o locutor entender todas as etapas da criação de um programa e destaca a importância de um trabalho em equipe. “É como um passe para gol. Se o time atrás de mim não colaborar, eu não consigo finalizar a jogada”, compara.

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Texto: Bruna Melo e Letícia Almeida
Foto: Bruna Melo
Revisão: Guilherme Guagliardi e Carmem Juliani

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