Jornalismo Investigativo: O processo de apuração do Caso Riocentro

A explosão de uma bomba no colo de um sargento do serviço de informações do Exército, na noite de 30 de abril de 1981, foi um dos mais polêmicos episódios da fase em que a ditadura militar procurava, com a abertura política, uma saída para o regime que se instalara no país em 1964. O IPM sobre o atentado foi feito sob medida para mascarar a participação de militares em atos de terrorismo e outras demonstrações de força para intimidar a oposição. Uma farsa que durou até o final dos anos 90.

Em uma série de reportagens publicadas à partir do dia 5 de março de 99, O Globo recolocou a História no rumo certo, informando que uma procuradora da República havia dado parecer favorável à reabertura do caso. Em junho daquele ano, a Procuradoria-Geral de Justiça Militar determinou ao Comando do Exército que fizesse um novo IPM. Em razão dos desdobramentos do caso, as reportagens do Globo sobre o assunto deram aos repórteres Chico Otávio, Ascânio Seleme e Amaury Ribeiro Jr. o Prêmio Esso de Reportagem de 1999.

Francisco Otávio Archila da Costa, 53 anos, teve acesso a todo o processo. O jornalista foi até Brasília, ao Superior Tribunal Militar, leu tudo a respeito e volto aos personagens da época. Encontrou muitas pessoas vivas de 1968 e 1981. “. Então, 20 anos depois, as pessoas já tinham um pouco mais de facilidade de falar das coisas “, conta. Dessa forma, ele pôde entrevistar o médico legista que examinou o corpo do sargento. “Eu vi esse corpo. Foi uma das primeiras cenas que vi mais chocantes da minha vida. E o médico disse que, realmente, o resultado da investigação era uma farsa”, explica.

Logo de início, o médico derrubou a tese de que a bomba teria explodido entre a porta e o banco do carona. Concluiu que o explosivo só poderia estar no colo do sargento. Essa entrevista, entre outras, foi considerada uma nova prova, que pelas leis brasileiras, foi o suficiente para a reabertura do caso. Outras fontes ouvidas também ajudaram, como por exemplo: alguns militares que falaram em on, e outros em off; e o juiz que determinou o arquivamento do fato na época, por motivos de pressões por parte do exército que não queria deixar que o DOI-CODI fosse responsabilizado.

Esse processo de apuração dos fatos foi divido com Ascânio Seleme que fazia um pouco o Superior Tribunal Militar e Amaury Ribeiro JR que entrava em contato com os generais de Brasília, enquanto Chico sondava os personagens da época. “Foi um trabalho coletivo muito bem harmonizado, digamos assim, em que cada um conseguiu cumprir bem o seu papel”, confessa. Como resultado de toda essa investigação, O novo IPM mudou a versão histórica sobre o episódio e concluiu que o sargento e o capitão eram os mentores e não as vítimas do atentado. O capitão continua solto, já virou coronel e está na reserva, devido a essa discussão sobre o alcance da anistia.

Com a conquista do Prêmio Esso de Jornalismo em 1999, 18 anos após os acontecimentos, a investigação histórica no jornalismo assumiu um importante papel. “Nós mudamos uma posição oficial sobre o episódio. Acho que esse talvez seja o grande barato da nossa missão: revolver, reanalisar, acrescentar um dado novo, lançar luz sobre determinados fatos”, completa.

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Reportagem: Rosa Andrade e Flávia Vianna

Revisão: Matheus Couto e Jorge Abel

Edição: Wagner Mendes e Roselaine Gomes

Vídeo: Flávia Vianna e Rosa Andrade

Pauta: Roselaine Gomes, Wagner Mendes, Rosa Andrade e Flávia Vianna

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