O jornalismo colaborativo e as mídias sociais transformam os padrões de consumo de informações.

O modo como o consumidor tem acesso as informações mudou e junto o modelo de se fazer notícias, forçando as empresas de comunicação a adaptar-se

A era tecnológica modificou completamente a forma de se ler notícias, assim como o modo que esta é produzida. Hoje em dia, já é normal se falar em uma nova espécie de jornalismo, o chamado “jornalismo cidadão” – também conhecido como jornalismo colaborativo –, que não é mais controlado pelos donos dos grandes meios de comunicação ou pelos jornalistas, mas sim, feito pelo cidadão comum.

A partir do momento em que as máquinas digitais entraram em cena, o verdadeiro produtor de informação passou a ser qualquer um que estivesse munido de seu smartphone e acesso à internet. As possibilidades tecnológicas permitiram que o indivíduo de qualquer formação tenha a possibilidade de virar uma verdadeira empresa jornalística, assumindo as funções de registrar e transmitir dados, fatos ou opiniões sobre acontecimentos da realidade a qualquer momento e de qualquer lugar do mundo. Mediante desse novo contexto, muitos se questionam o que espera o futuro do graduado em jornalismo.

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Há quem diga que o jornalismo passa por uma crise. A especialista Nívia Carvalho acredita que os meios de comunicação tradicionais passam por mudanças, mas existe sempre a possibilidade de adaptação. Nívia conta com três décadas de trabalho em redações, trabalhando como repórter e editora de edição impressa, começou a atuar com o jornalismo digital em 2005, se tornando a primeira Editora de Mídias Sociais do Globo, no período de 2010 a 2014. Atualmente, ela é professora convidada de duas instituições, lecionando em pós-graduações de jornalismo digital e marketing digital. Também é uma das coautoras do livro Para Entender as Mídias Sociais, volume 1.

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No exercício do jornalismo colaborativo, ou jornalismo cidadão, a audiência perde seu caráter passivo e torna-se ativo no processo de fazer notícia e os jornalistas perderam seu monopólio de disseminadores de informação.
R: Só a web permitiu que a audiência tivesse acesso às mesmas plataformas utilizadas pelos produtores de conteúdo profissionais. Os posteriores avanços tecnológicos deram aos usuários ferramentas que possibilitaram uma produção maior e cada vez mais diversificada, muitas vezes fora da pauta das grandes redações.

O jornalismo como profissão está ameaçado por essa nova forma de fazer notícias?
R: Não acredito que o jornalismo esteja ameaçado. Creio que a participação dos usuários enriquece a profissão. Afinal, o jornalismo deve ser um serviço para a audiência. O fato é que a audiência, agora mais participativa, reconfigura as relações com a imprensa, altera o fluxo de trabalho nas redações e exige novas habilidades do jornalista. O público importa e é para ele que trabalhamos. Não se pode fazer jornalismo pensando apenas se sua matéria terá chamada na primeira página.

Como os jornalistas devem lidar ou se adaptar a essa tendência que só tende a aumentar?
R: Devem estar dispostos a aprender sempre. Conhecer muito bem o comportamento da audiência para poder produzir conteúdos que atendam aos interesses e enriqueçam as experiências de seu público. É necessário usar os mesmos devices dos usuários e entender como a audiência consome o conteúdo produzido. Defendo, sobretudo, que jornalismo é um serviço. Por isso, o modelo de negócio baseado em páginas vistas (para se conseguir mais publicidade) e o conceito de meios de comunicação de massa são obsoletos.

Como as grandes redações estão se adaptando?
R: Estão se adaptando por finalmente entender a importância da participação da audiência, a redação muda por uma necessidade de sobrevivência do próprio negócio. Há, por exemplo, cada vez mais redações com núcleos para a produção de conteúdo multimídia; o cargo de editor de Mídias Sociais foi criado a partir de 2009 nos principais veículos de comunicação, estruturando a presença dos meios nas redes e ajudando a mudar a cultura nas redações, mostrando a importância da produção do conteúdo gerado pelo usuário e de suas opiniões sobre os fatos. Mais recentemente, em redações no exterior, surge a figura do editor de engajamento, e no Brasil, a Folha de São Paulo conta a partir deste ano com uma nova editoria, de Audiência e Dados, centralizando métricas e estimulando a interlocução com os leitores. Mas a mudança de cultura nas redações, de modo geral, é lenta e não raro produz erros, como o de tentar reproduzir no digital o mesmo modelo organizacional do conteúdo usado no papel (edição impressa).

Como saber se o jornalismo cidadão traz informações corretas e foi devidamente apurado?
R: O jornalista não pode abrir mão de seu dever e tarefa fundamental: apurar, checar as informações geradas por usuários.

Quais são os principais pontos fortes e fracos desta tendência?
R: De positivo, creio que já respondido nas perguntas anteriores. De negativo, especialmente para o jornalismo: a tendência de alguns sites de produzirem conteúdos irrelevantes em busca de cliques, achando que a audiência procura apenas fatos pitorescos e bizarros.

Qual a importância das mídias sociais para jornalistas?
R: As mídias sociais permitem que os jornalistas encontrem nas redes tendências, rumores, fontes, personagens e pautas. Com as redes, os jornalistas podem saber, em tempo real, a repercussão de suas histórias e têm possibilidade de conhecer os usuários, seus comportamentos, gostos, rotinas, etc. E, sobretudo, as redes são espaços para interação, para a troca entre os profissionais (e os veículos) e seus públicos. Elas são isso: sociais. Por isso, a moeda de ouro é a interação. As redes permitem a conexão com o público, fundamental para qualquer jornalista.

Como as mídias sociais estão alterando a forma como se lê as notícias?
R: Nos EUA, por exemplo, um terço da população adulta já acompanha as notícias via redes sociais. Os jovens recebem notícias em seus feeds sociais.

Como divulgar informação com a ajuda das mídias digitais?
R: Respeitando o DNA de cada rede. As plataformas têm suas peculiaridades e não se pode imaginar que o mesmo conteúdo, da mesma forma, possa ser distribuído igualmente por todas elas. Não se deve tratar as redes em série. É preciso leva-las a sério.

O excesso de conteúdo pode ser visto como algo negativo em algum aspecto?
R: Só o excesso de conteúdo ruim. Ou aquele que não se conecta com a audiência.

Como as mídias sociais ajudam a fortalecer a democratização ao acesso à informação?
R: A possibilidade de as pessoas terem acesso a plataformas e ferramentas que permitem o registro de fatos e sentimentos, sem dúvida, fortalece a democratização da informação. Entretanto, as mudanças no ecossistema digital merecem um olhar cuidadoso e cauteloso. O protagonismo do Facebook, hoje o principal distribuidor de conteúdo, é preocupante, por causa da concentração.

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